O Brasil e a prevenção ao suicídio
A campanha de saúde Setembro Amarelo se tornou uma das mais famosas atualmente no Brasil, criada a partir da história de um jovem estadunidense, Mike Emme, de 17 anos, que cometeu suicídio em 1994. Um rapaz que conseguiu restaurar seu próprio automóvel Mustang 68 sozinho, pintando-o de amarelo. Seus pais e amigos relatam não terem conseguido perceber a gravidade dos sofrimentos psicológicos e, assim, intervir para evitar sua morte. Em seu velório, uma cesta com muitos cartões decorados com fitas amarelas e mensagens escritas “Se você precisar, peça ajuda" gerou uma ação transformadora de visibilidade para quem passava por condições de sofrimento e necessitava de atenção no local, ao tornar-se pública tal atitude, desencadeou uma mobilização que hoje é esse espaço de diálogo e campanha de prevenção ao suicídio.
É importante ressaltar que uma doença psicológica é tão delicada e necessária de atenção quanto um adoecimento físico, e a proporção que a campanha atingiu demonstra como ainda é necessário de conhecimento, mas também intervenções para se tornar efetiva. A Organização Mundial da Saúde, em 1946, definiu saúde como um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas como a ausência de doença ou enfermidade. Desta forma, atentar-se na promoção à saúde, também faz parte da campanha de combate ao suicídio. Condições básicas como moradia, educação e saúde primária, são fatores que afetam diretamente as condições psicológicas de um indivíduo, além das questões de desigualdades sociais que podem afetar sua construção e equilíbrio. Analisar todos esses fatores contribuirá para auxiliar cada sofrimento de alguém que chega a um estado tão grave como de ideações suicidas. A própria OMS avalia o suicídio como um problema de saúde pública, estando entre as dez causas mais frequentes de morte, além de ser a segunda ou terceira causa de óbito entre 15 e 34 anos de idade.
A cada dez jovens de 10 a 29 anos que cometem suicídio, seis são autodeclarados negros; a cartilha “Óbitos por Suicídio entre Adolescentes e Jovens Negros”, lançada pelo Ministério da Saúde mostra que entre 2012 e 2016 o número de casos com pessoas brancas permaneceu estável, enquanto o das negras aumentou 12%. Mesmo com o racismo explícito criminalizado, sabemos que assim como pode ser imperceptível uma tentativa de suicídio até se chegar no ato sem a devida importância, o racismo estrutural é um dos fatores de maiores sofrimentos silenciosos da população negra.
O processo de adoecimento é gradativo e, muitas vezes, ocorre como do jovem Mike, despercebido pelas pessoas mais próximas e até com resistência do próprio indivíduo em sofrimento de assumir a necessidade de auxílio. Ao não se ter um cuidado e apoio, agrava-se como todas as outras doenças biológicas populares. Estimativas mostram que para cada suicídio, existem pelo menos dez tentativas suficientemente sérias que exigem atenção médica e para cada tentativa de suicídio registrada, existem quatro não conhecidas.
Atentar-se aos sinais é fundamental para intervir desde o início, podem ser eles: mudanças ou intensificação de comportamentos como pensamentos obsessivos negativos, variação de humor extremas, frases remetendo a uma desvalorização da vida, sentimentos intensificados, desapego a bens e costumes de valor de forma repentina, comportamentos irresponsáveis de perigo à vida, mudanças bruscas de rotina, apatia, agressividade, estresse social são sintomas que podem ocorrer isoladamente ou ainda combinados em pessoas em sofrimento, e que podem surgir a partir de doenças mentais como depressão, esquizofrenia, mas também partirem de fatores ambientais, como dificuldades financeiras, traumas como abusos sexuais, alcoolismo e violências sociais já ditas anteriormente como o racismo e homofobia. São diversos os influenciadores de um adoecimento, como também pode ser visto de diversas as formas de auxiliar no combate, pois cada ação influencia. Ter empatia e uma escuta acolhedora, mesmo com resistência de quem está sofrendo é fundamental para criar um espaço no qual a pessoa se sinta segura para expor seus sofrimentos, sem buscar prescrever um método de cura ou inferiorizando seu atual estado. A recomendação para serviços de assistência básica a saúde como Unidades de Estratégia da Família (ESF), CRAS e até o próprio CAPS, que possuem profissionais capacitados para acolher essa demanda é fundamental para que se tenha um apoio em conjunto no tratamento. O psicólogo, junto ao médico e uma equipe multidisciplinar, são recomendados para a intervenção nesses casos.
O Disque 188, Centro de Valorização à Vida, tornou-se popular entre as medidas de combate, oferecendo apoio emocional e prevenção ao suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar sob total sigilo por telefone, e-mail e chat 24h, todos os dias, tornando-se um grande apoiador dessa causa. Atualmente, a visibilidade dessa campanha é uma rica oportunidade de se aprofundar na necessidade urgente da saúde mental em nossa sociedade.
A pandemia, acontecimento extraordinário e que contribuiu mundialmente para desencadear e agravar inúmeras formas de sofrimento psíquicos e condições ambientais sofridas pelo isolamento e dificuldade de um apoio de forma presencial a da percepção dos sintomas de pessoas próximas. A busca pelo ato do suicídio em sua maioria não surge a partir do desejo da morte, mas sim pelo fim da angústia tão atenuada que impossibilita enxergar caminhos para enfrentá-la. A falta de diálogo, visibilidade e espaço para compreensão e acolhimentos dos fatores que adocem são agravantes para essa condição. Por isso, para uma campanha efetiva com combate, é importante compreender os motivos do seu adoecimento e trabalhá-los durante todo o ano. Para se combater o suicídio é importante validar, respeitar e auxiliar cada vida, em todas as suas subjetividades.
Referências:
https://www.cartacapital.com.br/sociedade/jovens-negros-saomaioria-em-casos-de-suicidio-no-brasil/
https://www.cvv.org.br/
https://saudebrasil.saude.gov.br/eu-quero-me-exercitarmais/o-que-significa-ter-saude#:~:text=Seguindo%20essa%20linha%20mais%20abrangente,com%20a%20defini%C3%A7%C3%A3o%20de%20sa%C3%BAde
https://www.tjdft.jus.br/informacoes/programas-projetos-eacoes/pro-vida/dicas-de-saude/pilulas-de-saude/setembroamarelo-mes-da-prevencao-do-suicidio